Outubro Rosa – Laços de Liberdade

 

 

Empoderamento, marcas, fé e empatia. Mais que palavras são formas de descrever um pouco das histórias que nos nortearão no especial “Outubro Rosa – Laços de Liberdade”. Três mulheres que nada teriam haver umas com as outras se não fosse um pequeno percalço em seus caminhos: O Câncer de Mama. Não se deixaram levar por seus medos, pois, em seus risos, suas lutas, tudo o que as constituem elas mostram que são muito maiores que um problema de saúde.

         Contaremos um pouco das memórias, pensamentos e da beleza de cada uma delas que em momento algum perderam suas esperanças. Conheça Ednalva, e sua amiga, Nossa Senhora da Aparecida, Sandra com seus cachos negros e sorriso largo e Poliana e toda sua empatia e conflitos. Pessoas que foram muito além de uma doença. Conheça-as!

 

Nossa Senhora Aparecida visita Dona Ednalva
Uma história sobre fé além do Câncer de Mama

Foto: Cleyton Ferreira

        Devota de Nossa Senhora Aparecida, mãe de duas crianças adultas, de bem com a vida e com uma autoestima de causar inveja, Ednalva Ferreira da Silva, acredita ter recebido a visita da Padroeira do Brasil em seu leito na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Dona Ednalva vem mudando toda sua família através da fé. Após ser diagnosticada com um agressivo Câncer de Mama a dona de casa vem mostrando que não à toa que a mãe de Jesus é sua santa protetora. Em um altar improvisado no canto da sala, onde ela acomoda a imagem de Nossa Senhora Aparecida, dona Ednalva quebra o estigma da mulher frágil, ao contar histórias que ela vem acumulando em seus 61 anos de vida. Usando uma camisa azul, cor do manto de Maria, ela conta a nossa equipe como fora o seu processo de tratamento contra o carcinoma (mais conhecido com câncer de mama), sem papas na língua, assim como quem conta a receita de um bolo, ela relata como foi descobrir o câncer. “Foi uma surpresa para mim e para minha família, ninguém esperava uma coisa assim, a gente sabe que isso existe com os outros, mas nunca com a gente, e, nesse dia, o chão desabou. Mas eu pedi muito a Nossa Senhora e Jesus Cristo que intercedessem por mim”, relatou.

Foto: Cleyton Ferreira      

    E eles intercederam, meses depois, após passar por sua primeira cirurgia para a retirada do câncer, Ednalva teve complicações cirúrgicas e sofreu uma parada cardíaca que a levou a passar a 15 dias internada na UTI. O que para os parentes parecia ser um adeus, para Nossa Senhora Aparecida era só a oportunidade para visitar sua devota amiga, “No momento que eu mais necessitava, quando eu mais precisava, ela me visitou na UTI, eu senti Nossa Senhora Aparecida do meu lado”, afirma Ednalva. Em suas preces a dona de casa diz “Santa Maria, rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte”, e assim foi feito, Maria se pôs em pé no leito de sua amada amiga, se fez luz e nessa luz uma nova mulher despertou do coma.

       
        Mãe de duas crianças adultas, Ednalva até hoje chama seus filhos de crianças, mesmo eles já tendo suas próprias casas e suas próprias famílias. São seus filhos, que mais enchem a dona de casa de orgulho, é então que ela baixa a voz e nos confidencia, assim como criança quando quer contar um segredo, que toda mulher é vaidosa, que pediu para os filhos, e mesmo para o marido, para rasparem sua cabeça, porém todos se recusaram. Decidida, ela não teve dúvidas, ela mesma raspou os cabelos dentro do pequeno banheiro de sua casa, aos prantos, e prometeu jamais entregar-se a doença, decidiu então entregar-se à Deus e jamais baixar a cabeça.   

        Foram oito sessões de quimioterapia, noites em claro, terços e novenas rezados, mas em maio de 2017 dona Ednalva pôde dizer ‘tchau’ para os médicos, ela havia encerrado seu tratamento e iria para sua casa comer seu cuscuz. Senhora de muita fé, ela brigava pela cura sem arredar o pé um só centímetro, mesmo após ter retirado a mama foi na fé que ela encontrou forças, “quando eu vou tomar banho, quando eu vou me arrumar, eu sinto a diferença na roupa, as vezes olho, as vezes nem ligo, e isso não me assusta nem um pouco, não ‘bateu’ na minha autoestima, de jeito nenhum, o câncer tem cura! Se você não tiver fé você não resiste”, afirma.     
       

Se você não tiver fé você não resiste      
    

       No entanto a força física não acompanha o amor e a fé da senhora da casa número 75, o agressivo tratamento acabou diminuindo os movimentos do lado direito de seu corpo, “A melhor coisa que tem é você se cuidar, enfrentar a vida de um jeito normal, não tão normal quanto antes, e não se isolar, porque a doença não quer isolamento”, diz ela. Hoje, Ednalva prepara-se para uma nova etapa de sua vida, ela, seus filhos, seu marido e Nossa Senhora Aparecida estão prontos para a histerectomia (retirada do útero) que será realizada pouco em breve.

        Procedimento que será tirado de letra, afinal, não é todo mundo que pode dizer que foi visitado por Nossa Senhora Aparecida no hospital.  Dona Ednalva pode não saber disso, mas ela, em toda sua força e fé faz parte da história de Sandra, ao mostrar para todos quem ela é. Mesmo sem dizer nenhuma palavra inspira outras mulheres em sua luta. Sandra e Dona Ednalva estão ligadas a uma rede de solidariedade e poder feminino. Em todos os seus cachos, primaveras e risos, a jovem prova a todos quem ela é, e recusa-se a aceitar qualquer forma de quietude.

 

Raios de sol em meio a cachos negros
Após o tratamento contra o câncer Sandra comemora seus novos fios de cabelo

Foto: Carlos Recupero

    Com os cabelos crescendo em harmônicos tons de preto e branco, Sandra Regina Gonçalves da Silva, cuida com carinho de seus cachos que começam a mostrar as histórias que a caruaruense de 37 primaveras leva onde for. Primaveras essas que ela traz em seu amplo sorriso, no brilho de seus olhos e em sua roupa de um amarelo solar estampado com pequenas flores vermelhas, que dão a ela um ar de menina travessa. Seus mais novos cachos parecem não se importarem em nos contar a história de Sandra, que ainda está em tratamento contra o Câncer de Mama.

       
        Diagnosticada com 10 linfonodos (pequenos nódulos que afetam a produção de anticorpos) entre a região da mama e axila, Sandra decidiu que lutaria por aquilo que lhes é mais precioso: ela mesma. Assim que ouviu de sua médica que seria necessário começar o tratamento quimioterápico com urgência ela apegou-se com a fé e começou a travar duas grandes lutas. A primeira, dela contra a doença, e a segunda contra um estereótipo de beleza. “Ao mesmo tempo que a médica me dava a notícia, eu conversava com Deus, eu dizia, Senhor, eu não vou te questionar por nada, mas me dê forças pra eu suportar o tratamento, relatou ela, em um dos poucos momentos que baixou a altiva voz. “Na hora que ela deu a notícia foi um choque, vem um pensamento de morte. A gente associa o câncer à morte, o que é uma sensação horrível, a vida se passa em segundos na cabeça da gente”, afirmou.

Foto: Arquivo Facebook

        Com a precisão e exatidão que nem todo relógio consegue ter, a jovem realizou     suas sessões de quimioterapia a cada 21 dias no Centro de Oncologia de Caruaru (CEOC) em Recife, Pernambuco.  Logo, seu cabelo começou a cair e esse que é um dos símbolos da feminilidade, o cabelo, ou mesmo sua falta, foi também um elemento de seu empoderamento. Sandra decidiu não usar perucas e sim lenços! Ela não queria mostrar que estava tudo bem, ela queria dizer a tudo e a todos quem ela era e pelo que ela estava passando, queria também que através de seus lenços, marcas e cicatrizes, sua história fosse contada sem que uma só palavra fosse dita. “Eu resolvi não usar perucas, resolvi usar lenços, porque a peruca seria como se eu estivesse mascarando a doença. Como se eu não estivesse aceitando. E eu resolvi aceitar cada fase, cada etapa, com o processo da minha cura”, diz orgulhosa de sua força. Após a retirada da mama e dar início a seu tratamento radioterápico, Sandra ainda pensa na reconstrução do seio, isso porque é preciso tratar completamente o câncer para só então fazer a reconstrução.        

        No momento em que ela recebeu o diagnóstico começou a reescrever seu destino, seus lenços, óculos e brincos passaram a comunicar para todos que aquela não era uma “coitada” ou mesmo “uma mulher câncer”, ela era Sandra Regina, mulher e livre. Sandra, não quer mostrar o câncer como o fim do mundo e sim como uma redescoberta de si mesma, de seu corpo, de seus destinos. “Eu não vou me fechar, eu vou falar! Porquê da forma que eu me espelho em outras pessoas, outras pessoas vão se espelhar em mim”, afirma ela batendo com as unhas bem cuidadas na bancada de madeira. Sandra assumiu o controle de seu destino e ninguém mais irá pará-la.

       
        Mas, e, se você estivesse no outro lado, se você fosse o parente que descobre que sua mãe, mulher, amiga, filha ou irmã está com Câncer de Mama? Poliana mostra, em toda sua empatia como é estar ao lado de alguém que luta contra o câncer e ainda assim convive com o medo de ser a próxima da família a desenvolver o carcinoma. Poli mostra que é preciso ir além das velhas histórias e construir novas narrativas para sua vida.

Raízes familiares
Avó, mãe e filha unidas pelo destino

Foto: Fernanda Oliveira

        Cor dos olhos, textura dos cabelos, altura e tantas outras características são heranças que nossos pais nos dão. São marcas de quem somos e das histórias dos nossos antepassados que nos acolheram em nossas peculiaridades. Mas, e quando essas heranças vão além das aparências, quando elas podem se transformar em algo maléfico ao nosso corpo?  Vez por outra perguntas similares a essa despontam na agitada cabeça da executiva de contas, Poliana Morais Bezerra, de 32 anos.  Seus lábios finos, seus olhos castanhos e sorriso largo não são as únicas heranças que seus pais a deixaram, sua mãe, sua tia, e possivelmente sua avó, tiveram câncer de mama, e ela, possui grades chances de desenvolver o carcinoma, porém ela arrisca-se ao ser dona de si.

        Poliana ousa ser uma mulher livre. Após o diagnóstico de câncer de sua mãe, ambas decidiram-se a lutar por suas escolhas, por suas liberdades, por seus corpos. Ela passou a correr à noite, mudou sua alimentação, construiu uma rotina que a possibilitasse estar junto de sua mãe e ainda assim desdobrar-se entre seu lar, a si mesma e seu trabalho. Ela jamais quis ser um exemplo de empatia, jamais quis ter uma rotina alimentar, mas ela os tem, e isso a faz ser única, isso faz parte de sua história e mostra que ela jamais deixou se abater por um possível diagnostico, a todo momento ela foi livre para ser ela e não uma história de câncer na família.

        Sua mãe, hoje já curada do câncer, é não só um exemplo de vida, como de lutas. No período do tratamento, ela, seu irmão e sua mãe decidiram juntos brincar de serem modelos, entre a compra de óculos, um chapéu e uma sessão de quimioterapia eles descobriam juntos novos prazeres, novas histórias e novas narrativas para coisas que poderiam ter os deixado tristes, mas que tornaram-se bons “causos”.  Como lembra a executiva rindo, ao contar que, durante a primeira troca de curativos pós cirúrgicos de sua mãe, ela é quem quase teve que ser socorrida pela equipe médica do hospital após ter passado mal. “Minha mãe olhou para o médio e para enfermeira e disse, é melhor você tirar ela da sala, ou então vocês vão ter que parar meu atendimento para cuidar dela, recorda.

Foto: Fernanda Oliveira

        Porém, o tratamento não foi fácil para nenhuma das partes, mesmo com o medo de que o câncer venha a desenvolver-se em seu corpo, Poliana foi para sua mãe um porto seguro. Ela conta que certa vez encontrou sua mãe chorando e ao questionar o que acontecera a senhora de 41 anos respondeu: Eu estou me sentindo mal porque eu cheguei no consultório e a pessoa se afastou de mim, mas ela não sabe o que eu passo para estar usando essa máscara, não uso ela porque estou com uma doença contagiosa, mas sim por minha autodefesa”.

       Assim como um passarinho ao sair do ninho, Poliana jogou-se nessa vida sem saber o que fazer, mas com a certeza de que se ela venha a desenvolver a doença, não será mais uma fonte para o INC (Instituto Nacional do Câncer), ela será uma vitoriosa, um exemplo e vai contar sua história, bem como a história de sua mãe e tia para que todas as meninas e meninos de sua família possam se cuidar cada vez mais, e brincar com lenços, chapéus, perucas e óculos estilosos.

 

    O que pensam então os especialistas? O que os médicos tem a nos dizer sobre o carcinoma? Em uma conversa com médico oncologista, Carlos Laerson, que lembra a importância do auto toque.


A palavra de um especialista sobre o Câncer de Mama

        A vida muitas vezes nos reserva surpresas que proporcionam reflexões, mudanças de hábitos e novas perspectivas sobre o nosso cotidiano, nossas experiências. A descoberta de câncer pode parecer “pedra no meio do caminho”, porém, essa mesma descoberta torna-se mais uma fase em meio à histórias de determinação e fé. Essa paixão pela vida transforma-se também em vontade de disseminar a experiência da cura para todos. O especial “Outubro Rosa – Laços de Liberdade” não trata de histórias sobre câncer de mama e sim, sobre mulheres que dentre tantas outras memórias de suas vidas, tiveram câncer de mama, mas não se reduzem a isso, são mulheres donas de si.  
        De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), quase 60 mil novos casos de câncer de mama estão previstos 2018/2019, apenas no Brasil. Acompanhando o crescente número de casos o INCA decidiu criar, em meados da década de 1990, a campanha “Outubro Rosa”, uma ação que tem o objetivo de conscientizar e informar a população (especialmente as mulheres) sobre a causa. O oncologista clínico Dr. Carlos Laerson recebeu a reportagem das Rádios Liberdade para esclarecer algumas dúvidas relacionadas ao tema.

    Segundo o Dr. Carlos Laerson, o câncer de mama é uma doença que pode ser detectada com antecedência. “O câncer de mama não pode ser prevenido, mas podemos detecta-lo precocemente. A prevenção, que na verdade é a detecção precoce é feita através dos exames, o autoexame que a mulher deve fazer todo mês, o ultrassom no caso das mulheres jovens e acima dos 40 anos, a mamografia anualmente”, explica.  O médico ainda destaca outros pontos importantes para diminuir o risco da doença: “Cuidado com a dieta, cuidado com o peso, não fumar, não beber em excesso. Isso tudo evita o aparecimento do câncer”Caso a mulher seja diagnosticada, ela terá um suporte médico hospitalar e psicológico gratuito, garantido pelo Sistema Único de Saúde (SUS).  Laerson afirma que após a constatação há uma enorme possibilidade de tratamentos, que podem ser desde a químico, até a retirada da mama, depende das necessidades do organismo de cada pessoa.  

     Receber o diagnóstico de câncer de mama não é fácil, mas o apoio familiar, psicológica profissional e o fortalecimento da imagem da mulher são fatores que podem ajudar durante o processo, como afirma Sandra Regina, que ainda está em tratamento contra o câncer. “Se toquem mais, quebrem esse tabu, só a gente sabe o que a gente tem, façam o autoexame, não se fechem, compartilhe com a família, a caminhada é longa, mas a vitória é certa”, afirma ela. Cuidado com a saúde, esse é o recado que o Dr. Carlos Laerson deixa para todos. “Façam todos os exames uma vez por ano, exame de colo de útero, exame de mama, principalmente após os 40 anos de idade, que é a idade onde começa a fase de maior perigo”. O médico conclui, “À medida que a idade vai passando, a incidência de câncer vai aumentando, porque o organismo está debilitado, o sistema imunológico está debilitado, então é preciso que se faça os exames anualmente”

      Com um crescimento anual de 5 a 10%, o Câncer de Mama precisa deixar de ser um tabu. Realize o autoexame, se toque sem medos ou preconceito. Seu corpo a acompanhará em todas suas vitórias, alegrias e mesmo nas pequenas decepções. Converse sobre seus medos, receios e anseios com as pessoas que você ama. O outubro rosa vai passar, mas não deixe que o cuidado e o carinho consigo mesma passem com ele. O Câncer de Mama tem uma chance de cura de 95% quando descoberto no início. Se toque, se inspire, seja você em todo seu corpo!

 

 

O especial tem a produção de Carlos Recupero, Cleyton Ferreira, Guilherme Moura e Mauricea Moura. O texto é de Hugo Oliveira, com a supervisão de Fernanda Oliveira e Claudiana Silva. 

 

 

 

 

 

 

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